
Ontem joguei você fora... Arrumar meu quarto era uma missão desde aquele dia. O primeiro domingo ensolarado só, recontando as pétalas confetes de um jardim baldio. As trouxera para o meu dormitório, depositando nas fronhas ainda com os vestígios do seu sono, dentro das embalagens do perfume e do embrulho da pantufa; presentes já finalizados com o uso.
No semestre seguinte, também usei os marcos das janelas, onde você repousara o pé, as pastas velhas com os poemas que lhe escrevi e o miolo do dicionário de português - suporte a algumas das suas leituras.
Por fim, guardei as peças da carola das flores no envelope das fotografias que fizemos juntos, na bolsa térmica a qual lhe aquecera, e nas minhas camisetas menores que arriscara usar às vezes.
O meu dormitório havia se tornado uma passagem (secreta) petaliforme até sua presença. Santuário semiótico das visões que eu não queria ter, mas sê-las de novo antes do último equinócio, se me pudesse curar das equimoses. Não pude.
Arrumar meu quarto era uma missão desde aquele dia e ontem ingeri coragem para fazê-la sem dó. Nem tudo cabe em um guarda-chuva. Abri tudo. Expus todas as coisas sobre a cama recém feita e selecionei o que me pauta à vida. E junto aos volumes de mal-me-queres e bem-me-queres, descartei uma três por quatro sua, de regata azul, ao lado de um peixinho gordinho já desidratado. O aroma doce das recordações orgânicas incondizia com a aparência esmaecida do guardado doloroso. O passado belo se decompora enquanto eu dormia, alterara minha glicose enquanto eu sonhava, e ocupara de nada o jardim enquanto eu acumulava você no meu quarto bagunçado. Mas, ontem... Ontem, eu joguei você fora.
jueves, 23 de julio de 2009
Petaliforme
Publicado por _ en 16:32
Etiquetas: Cartas a Davi
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