Quando a gente guarda a alegria, ela diminui. Quando a gente guarda a dor, ela aumenta. Meus sentimentos não freqüentaram igual escola. A esperança se formou em escola pública. A avareza saiu de escola particular. Meus sentimentos mudam de freqüência, não têm a mesma escolaridade. Muitos não completaram o Ensino Fundamental. Minha raiva é primária. Xingo mudanças de pista sem pisca no trânsito, enlouqueço em filas, abomino preconceito, conversa alta no cinema e ser abandonado no restaurante. A raiva vai agredindo antes de refletir. Minha ternura já é pós-graduada. Posso me condoer se um caramujo demora uma semana para atravessar a parede da sacada ou adoecer se um passarinho é pisoteado pela rua. Bipolar é pouco para mim, sou multipolar. A depressão é somente um entusiasmo que pensa demais.
Predomina o hábito maniqueísta de uniformizar o perfil das pessoas, de fechar a conta, de concluir se alguém presta ou não presta, eliminando as contraprovas. Se o cara é um péssimo marido, conclui-se que é também um péssimo pai. Não é assim. Pode ser um péssimo marido e um excelente pai ao mesmo tempo. Pode trair, discutir e brigar com a mulher e cuidar dos filhos de um jeito amoroso e único. Pode ser um gestor impecável no trabalho e se endividar sem limites em casa.
Minha dor é inteligente, minha alegria é burra. Não amadureci de todo, tampouco me infantilizei de resto. Sou desigual, como uma família que se divide e migra para tentar chance em outro estado. Não sofro parelho, harmônico, um naco por vez. Sofro para explodir, em uma única dose, até cansar de sofrer. O travesseiro detesta, mas nesse momento é rebaixado para toalha de rosto. Pior é quando ele se torna tapete do banheiro. Minha euforia é apressada, quis trabalhar cedo e largou os estudos. Trocou a mesada pelo cartão-ponto. Não existe harmonia entre as experiências. Minha generosidade ganha a vida trançando cestas de vime para roupas sujas. Minha criatividade monta pandorgas para engrossar o vento. Minha persistência fez MBA para se sobressair diante da concorrência. Na poesia, desenvolvo profissões extintas. Cada lembrança é uma personagem diferente em mim. Expresso a mais analfabeta emoção para demonstrar sábia serenidade mais adiante. Desisti de me censurar. Não mudo de opinião, mudo o sentimento da opinião.
(!)
viernes, 21 de agosto de 2009
Fabrício Carpinejar
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lunes, 17 de agosto de 2009
Escrever
Escrever é dizer o que os sentidos falam quando estão sem caneta.
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miércoles, 12 de agosto de 2009
-noel

E a sua vocação para ser papai
e a minha de ser filho único (mimado)
é a nossa de optar-nos antes do natal
escrever os poemas pensando em ler
...E reter os já lacrados na caixa do correio
como pedidos de presentes ao ema-noel
para lembrar que eu fui um bom menino nesse semestre
e desejo seu sorriso novo nos olhos, de cor na cor daquele moletom
Para isso, talvez um beija-flor e-mail atravesse sua janela
a cantar cem cartas ainda não escritas
desentendidas na chuva agridoce das letras
de ouvir repousado sobre quem, disse o colibri, está dentro de mim
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*sim, eu sei que Emanoel é com 'u': Emanuel.
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lunes, 10 de agosto de 2009
Guarda-chuva-vermelho
Eu não queria aquela carona de verdade
logro em ter eleito ir caminhando dentro da chuva
para ofertar meu braço em formação de laço com o teu
debaixo da mesma armação de varetas móveis, no meio: nós e a haste
perdendo os pingos para fora do que nos disseram
Quando desfazíamos o silêncio, resvalado pela rua
dávamos saudações em deleite do depor nossos defeitos escolhidos:
"Eu sou chato!" - "Eu falo demais!"
quiçá melhor assim começar o conto ao avesso:
malquerença antes e benquerença depois, acusação antes e absolvição depois
Quando calávamos, o pavimento cintilava em meia voz
contava sobre a tua preferência pelos mais tenros
e o meu encantamento pelos mais claros ou dourados
mas ainda que eu insista com a barba e tu em escurecê-los
nos restarão os cheiros dissolvidos de tempo e de cores
E eu teria caminhado duas esquinas mais para não te resfriar
contudo e com todos, o ônibus das onze não esperaria por essa intenção
os onze minutos que uma timedez levaria para se despedir a tua porta
com a sobremesa dos dias frios, premiando as pegadas d'água na rotunda espelhada
brilhante fosca no céu lobo, contraste sob, quem diria... o mesmo guarda-chuva-vermelho
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jueves, 6 de agosto de 2009
Diálogo pagão
- Acorde! Vamos a igreja. Aqui nós levantamos com o Senhor!
- É, mas eu durmo mais tarde do que ele!!!
***Escutei em um filme qualquer. Desses que passam de madrugada na tv aberta, antes do Chavez.
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Como certo garotinho de um comercial antigo
Percebi que junto com a tendência anos 80, que se evidencia nas vitrines, nas músicas, nos hábitos, nos cortes de cabelo, entre outras coisas, desembarcou o vírus H1N1 com essa mesma referência cronológica e semiológica. E não só ele. Ontem, o Pioneiro informou sobre um tipo novo de HIV identificado no sul da África. Visto isso, talvez não demore muito para que este último seja o alarde da década, assim como foi a há quase três.
Segundo estudos espiritualistas acerca do advento da AIDS, na época, a doença veio com a missão de deter o hedonismo sexual em detrimento do "tudo pode" a partir da leitura e prática equivocada dos conceitos de liberdade e amor. A praga também fora incumbida de romper preconceitos, porquanto os infectados eram gays, heterossexuais, idosos, jovens, cristãos, ateus, negros, brancos, homens e mulheres de quaisquer classes sociais. Com isto, a humanidade amadureceu para um equilíbrio e ciência sobre libertar e amar o próprio ser – prioritariamente –, para que o próximo representasse um indivíduo igualmente amável. E não uma drágea de uso externo para suprir a necessidade física e psicológica do sexo ou, um sanativo free lancer dos déficits emocionais.
Quanto a gripe suína, não está claro a que veio, mas representa, sem dúvida, um despertador social. Um indicativo de que algo grave paira no comportamento humano, e usa a enfermidade para se comunicar.
Será que regredimos? Será que o amor próprio virou egocentria, narcisismo, isolamento? Será que havíamos esquecido nossa fragilidade? Olvidamos que as moléstias desconhecem passaportes? Em uma cultura digital na qual vírus é um programa corrompedor de arquivos, precisamos tê-lo em verdade para nos sentirmos orgânicos? E ficarmos anti-sociais por obrigatoriedade sanitária a fim de valorizarmos a coletividade, o amor e a liberdade?
Como certo garotinho de um comercial antigo, eu diria em um tom quase inocente: “... Meu Deus, criamos um monstro!”
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lunes, 3 de agosto de 2009
Marcus Pickles
Todos são humildes. Apenas vestem-se de arrogância para sobreviver.
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